Ao nos aproximarmos de pintura de Leonor Botteri, entramos em um mundo que não se revela de imediato, um mundo que nos solicita e nos perturba. É uma linguagem que emerge do silêncio, ascética, imagens que falam da espera, do presságio. Esse ensaio busca o mistério gestado no imbricamento entre concentração e dispersão, uma obra nunca concluída, entreaberta, instalada no limiar do ser, revelando verdades mais profundas, tecida da intimidade, metafísica. Suas naturezas-mortas são silenciosas, não há gritos, mas sussurros, sons articulados e inarticulados. Os autorretratos São uma conversa com a intimidade, um gênero bastante apropriado a uma alma recatada, que não se sente à vontade na ação. Botteri descreve os olhos que perderam o desejo de olhar. Há qualquer coisa de abandono, lassidão, de cansaço ou fastio nos olhos dos personagens da artista. Aproxima-se de De Chirico. Em ambos, as figuras são feitas de silêncio, solidão, isolamento, abandono, sombras da existência. Inumanas, estranhas, quase manequins, abandonadas em atmosferas desertas propícias a enigmas. Ou ao desolamento das nostálgicas figuras de Hopper. Na indiferença pintada por Leonor Botteri, não se fica indiferente.
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