Tal como apontado pela pesquisadora Beatriz Sarlo (2005), a memória é um dever na América Latina pós-ditatorial. No campo da literatura, os autores contemporâneos passaram a utilizar diversas estratégias escriturais -na narrativa, na poesia e no teatro -, tendo como desafio a reflexão sobre um passado traumático perpetrado por regimes autoritários. Elaboram, dessa maneira, discursos sobre a memória que transcendem à história oficial e fazem ressoar as vozes da experiência. O presente Dossiê, intitulado América Latina: embates, memórias e resistências na literatura contemporânea, deixa em evidência a insistência do discurso literário no Cone Sul do novo milênio em manter vivas ou tirá-las do esquecimento, como resistência, diversas memórias ligadas às experiências traumáticas: as ditaduras no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, ademais dos seus efeitos nos corpos individual e coletivo. Os textos que apresentamos configuram uma cartografia que explora poéticas, motivos, símbolos, corpos, afetos, identidades e territórios que contribuem com o debate teórico-crítico da relação memória-literatura no tempo em que a vitalidade das memórias toda vez que, sobre elas, são alçadas as ameaças do silenciar e do esquecimento obrigados. Somos, portanto, conscientes de que a violência política tem deixado vestígios traumáticos e ainda atuantes em todos os países da região, como é possível vislumbrar a partir da produção literária abordada neste número da Revista Signo. Para tanto, organizamos a apresentação destacando, primeiramente, os artigos que estudam textualidades brasileiras, as quais trabalham as experiências de fronteiras entre Uruguai, Paraguai e Brasil; em seguida, as que estão circunscritas ao horizonte discursivo argentino; e, por último, as chilenas. Naturalmente, o leitor poderá organizar a sua própria cartografia de leitura, já que é possível estabelecer linhas de continuidades e de divergências entre os estudos dedicados às produções literárias de cada país. Ao longo das últimas duas décadas, a literatura contemporânea tem tomado o conceito de arquivo como estratégia para exumar os fantasmas do passado e, ao mesmo tempo, assinalar como cada um de nós pode se transformar neste repositório da voz dos vencidos, um horizonte outro para que as memórias se entrecruzem, encontrando na ficção um espaço para recontar. Em "O baú e a chave da memória em Paraízo-Paraguay, de Marcelo Labes", os significantes baú e chave recebem atenção especial, escapando do território puramente metafórico -elementos que estavam bem guardados por uma matriarca que viveu a zona nebulosa da confusão pela senilidade -, para se transformar em insights de uma narrativa repleto de vazios, que precisam ser preenchidos. Moura Prass et al. convidam os leitores a conhecer a história de uma família radicada no estado de Santa Catarina. Ao tomarem como fundamentação teórica as problematizações não apenas advindas dos
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