Irritabilidade em crianças pré-escolares com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade: análise de fatores ambientais familiares
A irritabilidade acomete um terço das crianças e adolescentes com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), associando-se a vários desfechos negativos no desenvolvimento. O ambiente em que a criança vive é essencial no processo de regulação emocional, especialmente durante o período pré-escolar, e pouco se sabe sobre a associação entre fatores ambientais familiares específicos e irritabilidade em crianças com TDAH. Assim, o objetivo desta pesquisa foi investigar a relação entre fatores ambientais familiares específicos e irritabilidade em crianças pré-escolares com TDAH. Trata-se de um estudo observacional transversal aninhado a um ensaio clínico randomizado que incluiu 153 crianças pré-escolares com TDAH o estudo MAPPA. Apenas dados pré-intervenção foram considerados em nossas análises. Para a avaliação de irritabilidade, utilizou-se a escala Affective Reactivity Index (ARI). Os fatores ambientais familiares foram investigados e categorizados em três dimensões: parentalidade, ambiente familiar e psicopatologia materna. A parentalidade foi avaliada utilizando-se o Preschool Five-Minute Speech Sample (PFMSS), a Parenting Scale, a Parenting Sense of Competence Scale e a Parent Practices Scale. O ambiente familiar foi analisado pela Chaos, Hubbub, and Order Scale. E a psicopatologia materna foi examinada por meio do Beck Depression Inventory-II, da Adult Self-Report Scale, da Wechsler Adult Intelligence Scale-III e do Adult Temperament Questionnaire. Realizou-se uma análise exploratória para avaliar o poder explicativo das variáveis individualmente e aplicou-se uma regressão stepwise de Poisson para identificar quais desses fatores ambientais poderiam ser potenciais preditores de irritabilidade. Os resultados demonstraram associações entre irritabilidade e as dimensões de parentalidade e psicopatologia materna. A parentalidade com disciplinas disfuncionais associou-se a um maior nível de irritabilidade, enquanto as práticas parentais mais positivas, melhor qualidade na relação mãe-filho e a maior percepção de competência parental associaram-se a um menor nível de irritabilidade nas crianças da amostra. Sintomas de depressão e de TDAH nas mães foram relacionados a níveis mais elevados de irritabilidade. A análise pela regressão de Poisson revelou que uma maior frequência de comentários negativos em relação aos positivos no PFMSS, menos práticas parentais positivas e sintomas de TDAH nas mães foram os preditores significativos de irritabilidade. Esses achados destacam a importância de uma avaliação completa das práticas parentais, da interação entre pais e filhos e da saúde mental dos cuidadores ao planejar intervenções voltadas para a redução de irritabilidade em crianças pré-escolares com TDAH.
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