O artigo analisa o perfil socioeconômico da população atendida pela Linha 1 – Azul do Metrô paulistano à época de sua inauguração. Em nossa pesquisa, mapeamos as classes de renda que moravam no entorno dessa linha, entrevistamos técnicos e dirigentes da Companhia do Metropolitano e de outras entidades envolvidas, bem como analisamos jornais, revistas especializadas e documentos técnicos. Verificamos que a rede de metrô foi pensada para descongestionar o centro urbano, a partir da retirada de ônibus das ruas. Isso atenderia a interesses das “classes médias” – que eram proprietárias de automóveis – e do setor terciário – que passaria a receber um maior afluxo de clientes e colaboradores usuários de automóveis, além dos novos usuários do Metrô. Constatamos que as camadas de mais alta renda foram as mais favorecidas pelo novo equipamento. A discrepância no atendimento era gritante: enquanto 13% da população mais rica usufruíam dessa infraestrutura, nenhum habitante dos estratos mais pobres se beneficiava dela. Os moradores das periferias, portanto, foram condenados a continuar utilizando ônibus e trens. Reproduziu-se, assim, nosso padrão periférico de urbanização: os bairros mais distantes do centro, com infraestrutura deficitária, são relegados aos mais pobres, enquanto as áreas centrais, dotadas de serviços urbanos, são ocupadas pelos mais ricos. Por esses motivos, concordamos com Francisco de Oliveira (1982), que atribuiu o grande peso das “classes médias” na política urbana ao desmantelamento das organizações dos trabalhadores durante a ditadura militar (1964 – 1985). Também subscrevemos à tese de Silvana Zioni (1999), para quem as políticas de transporte do período autoritário apenas saíram do papel porque atendiam aos interesses das classes dominantes.
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